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sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Os mártires de Chimbote e o escândalo dos pobres. Entrevista com Gustavo Gutiérrez


O pai da teologia da libertação do Peru fala do Pe. Sandro Dordi e dos dois franciscanos poloneses que serão proclamados bem-aventurados no próximo sábado em Chimbote: "Mortos peloSendero Luminoso porque constituíam uma alternativa não violenta ao plano revolucionário. A denúncia da pobreza por amor 'complica' sempre a vida".
A reportagem é de Giorgio Licini, publicada no sítio Mondo e Missione, 02-12-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
No Peru, já estamos às vésperas da beatificação dos mártires de Chimbote, três missionários – o sacerdote fidei donum de Bérgamo, na Itália, Pe. Sandro Dordi, e os dois franciscanos poloneses,Pe. Miguel Tomaszek e Pe. Zbigniew Strzalkowski – mortos em 1991 pela guerrilha maoísta do Sendero Luminoso.
Eles vão se tornar bem-aventurados no sábado, com um rito que será realizado justamente em Chimbote, no estádio da cidade. O que significa essa beatificação para o Peru? E – mais em geral – o que ela diz sobre o tema dos pobres e da sede de justiça, ferida ainda aberta nas periferias do mundo de hoje?
Perguntamos isso ao Pe. Gustavo Gutiérrez – o teólogo peruano considerado o pai da teologia da libertação – que, no mesmo país dos mártires deChimbote, nasceu, desenvolveu o seu pensamento e ainda vive.
Eis a entrevista.
O que você pensa sobre a próxima beatificação dos três mártires de Chimbote?
São pessoas que eu encontrei e conheci apenas ocasionalmente. Mas eu diria que, para além da sua vida pessoal, podem ser feitas algumas considerações para toda a América Latina. Como é possível que em um continente de maioria cristã e católica tenha havido e ainda haja tantas pessoas que são mortas? É uma coisa que faz refletir. Esses religiosos são mártires porque foram mortos, como se diz, em odium fidei. Mas é preciso entender, mais precisamente, que isso aconteceu por causa da caridade, consequência da sua fé. Portanto, não foi uma questão de "doutrina" sobre a fé, mas de ação pela justiça. Eles também não desejavam ser mortos. O martírio traz o pecado à baila. Quando há uma pessoa morta, isso significa que há um assassino. E ninguém deseja que seja cometido um pecado desse tipo.
Quem são os pobres hoje? O que significa estar com os pobres?
Estar com os pobres significa ser cristão. A pobreza é a total falta de direitos de vários tipos: econômicos, culturais, raciais... A pobreza é a condenação desejada à marginalização e à irrelevância. É a substituição da justiça pela esmola. É o fatalismo de crer que a pobreza é inevitável e não um pecado do homem. A pobreza é complexa e tem muitas causas, mas não uma fatalidade. A denúncia da pobreza por amor "complica" a vida para outras pessoas. Daí o martírio. Ninguém está destinado a ser pobre. Não é a vontade de Deus.
O que você lembra do Bem-aventurado Dom Romero?
Eu o conheci em alguns encontros e depois fui ao funeral que foi uma autêntica tragédia, em um clima muito tenso, com mais de 40 mortos, boa parte deles pisoteados depois dos primeiros tiros. Falou-se de uma "conversão" de Romeroaos pobres e à justiça durante o seu breve episcopado de apenas três anos em San Salvador. Na realidade, Romero era de formação, digamos assim, tradicional, mas não um "conservador". Ele só quis denunciar as causas da pobreza e os casos de homicídio. Ele quis estar ao lado dos pobres. Não é preciso ignorar ninguém, mas a nossa primeira preocupação são os pobres. A justiça não é marginal ou alternativa ao amor. É a primeira expressão do amor. Não podemos separar as duas coisas.
O que você pensa do terrorismo político como o que se abateu no passado sobre o seu país com o Sendero Luminoso e outros movimentos?
É absolutamente criminoso. Durante os conflitos internos da América Latina, a maioria das vítimas foram causadas pelas forças armadas governamentais ou relacionadas com os grupos de poder. Mas também grupos terroristas insurgentes fizeram muitos mortos, como os mártires de Chimbote. Pessoalmente, eu condeno essas ações do modo mais absoluto. Muitas vezes, os mártires dos terroristas caíram pelo fato de que, com a sua atenção e amor às pessoas, constituíam uma alternativa não violenta ao plano revolucionário. Eram como que "concorrentes" no território. Estavam fora da disputa política.
Que relação há entre pobreza e morte?
O conflito interno no Peru provocou cerca de 70 mil mortes. Dois terços delas entre os grupos indígenas mais desfavorecidos. Mais uma vez, morreram os mais pobres. A pobreza é a principal causa de morte no mundo. Basta pensar nos 800 milhões de famintos que ainda temos. Trata-se de uma forma de violência institucional. É justo falar de "escândalo" também como categoria teológica. A desigualdade social é uma grande ferida. Uma grande pedra de tropeço para o anúncio do Evangelho e a realização das promessas.
Mas a religiosidade na América Latina se torna cada vez mais espiritualista e talvez até fundamentalista...
É verdade. De fato, cresce também o pentecostalismo católico. Eu digo que tudo pode ajudar, com uma única condição: que não se crie uma separação com a realidade. A categoria da realidade é a que deve nos guiar. O Papa Bento XVIfez uma afirmação muito importante para a assembleia dos bispos latino-americanos em Aparecida, Brasil, em 2007: "A santidade não consiste em fugir do conflito". Vivemos em um tempo que definimos de "pós" em todos os sentidos: pós-industrial, pós-moderno, pós-ideológico... Mas ainda estamos longe de uma situação de pós-pobreza. Essa é a realidade!

terça-feira, 29 de maio de 2012

2 de maio de 1989: Bomba explode Memorial e reabre feridas da CSN



O Memorial 9 de Novembro, inaugurado com parte das comemorações do dia 1º de Maio, foi atingido por uma bomba.

O projeto do arquiteto Oscar Niemeyer, erguido na praça principal de Volta Redonda, homenageava os três operários mortos durante a repressão militar à greve ocorrida em novembro de 1988 na Companhia Siderúrgica Nacional. Soldados do Exército de vários quartéis do estado e do Batalhão de Choques da Polícia Militar do Rio de Janeiro dispersaram uma manifestação em frente ao escritório central da companhia e invadiram a usina, culminando na morte dos operários.

O monumento de concreto tinha 6m de altura e 15 t de peso.

A explosão foi violenta a ponto de ser ouvida a uma distância de 3 km, e reduziu a estilhaços os vidros dos prédios situados num raio de 300 metros. Não houve vítimas, mas sob o impacto até as portas de aço do edifício da CSN, situado na praça, foram arrancadas ou ficaram empenadas.

Segundo as primeiras investigações, peritos do Instituto Carlos Eboli declararam que se tratava de obra de profissionais. Uma segunda bomba não detonada foi encontrada horas depois. O então presidente José Sarney soube do atentado assim que chegou no Palácio do Planalto, informado pelo chefe do SNI e considerou o episódio "profundamente lamentável ".

A noticia da explosão caiu como uma bomba no Congresso Nacional e dominou as rodas de conversa. Lula lembrou o caso do Riocentro e a bomba que matou uma secretária da Ordem dos Advogados do Brasil no Rio para insinuar que este seria mais um atentado que não seria investigado pelo governo.

A participação do Exército
A participação do Exército no atentado foi revelada em 1999 com a declaração do ex-capitão Dalton Roberto de Melo. Em depoimento ao JB o ex-capitão denunciou o general Álvaro de Souza Pinheiro como autor intelectual do atentado.

O depoimento do ex-capitão Dalton lançou luz em recantos escuros da história recente do Brasil. Ao contar o que sabia, ele mostrou a dimensão dos conflitos internos do período chamado de 'abertura política'.

O Memorial foi mantido como ficou após atentado a pedido de Niemeyer.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Regime militar volta ao debate público


Os casos do coronel Ustra e do Cabo Anselmo serão julgados apenas seis dias após a presidente Dilma Rousseffter instalado oficialmente a Comissão da Verdade, destinada ao esclarecimento de casos de violação de direitos humanos ocorridos no regime militar. Eles também vêm à tona no mesmo momento em que são levadas a cabo, em diferentes partes do País, ações destinadas a expor publicamente agentes de Estado acusados de terem participado de torturas, sequestros e desaparecimentos forçados.

O comentário é de Roldão Arruda, jornalista, e publicado no jornal O Estado de S. Paulo, 22-05-2012.

Pode ser somada a isso a grande disposição de militares da reserva, descontentes com a comissão, de divulgarem declarações de protesto contra a comissão, o que chamam de revanchismo, e críticas à presidente. Paralelamente, debate-se, em termos políticos e jurídicos, qual deve ser o alcance de comissão: julgar apenas as vítimas de crimes cometidos por agentes de Estado? Ou tratar também de violências que teriam sido cometidas por grupos de esquerda que recorreram às armas na tentativa de derrubar o regime?

Acima desse debate paira ainda a questão das leis internacionais, aceitas pelo Brasil, segundo as quais os chamados crimes de lesa-humanidade, entre eles o desaparecimento forçado, são imprescritíveis e não alcançáveis por leis de anistia como a que foi promulgada no Brasil em 1979 e referendada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2010.

Poucas vezes na história recente se viu um período de debate sobre o regime militar tão intenso e marcado por tensões.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

EUA pode ajudar Brasil a abrir 'caixa de Pandora' do regime militar, diz especialista

Os Estados Unidos devem ajudar o Brasil a abrir a "caixa de Pandora" do seu regime militar, contribuindo com aComissão da Verdade que inicia os seus trabalhos nesta quarta-feira, disse à BBC Brasil um especialista americano em obter acesso a arquivos confidenciais históricos.
Peter Kornbluh, diretor de documentação sobre o Brasil no National Security Archive (Arquivo Nacional de Segurança), uma organização sem fins lucrativos vinculada à Universidade George Washington, acredita que o Brasil deu um passo histórico com a criação da Comissão, após o qual será impossível retroceder.

"Uma vez que a caixa de Pandora do passado for aberta, será muito difícil fechar a tampa novamente", diz, referindo-se aos segredos que podem ser revelados pela primeira vez, e que dariam início a um segundo debate no país, desta vez sobre justiça.

Kornbluh, um especialista em "abrir caixas de Pandora" usando a lei de acesso à informação americana, crê que as informações guardadas nos EUA podem ser valiosas principalmente diante da relutância das Forças Armadas brasileiras em abrir seus arquivos.

Sob pressão para ajudar no trabalho de comissões da verdade na região, ele diz, o governo americano tem liberado evidências ainda que atestem suas "políticas externas desabonadoras, reprováveis e imorais do passado", afirmaKornbluh.
A entrevista é publicada pela BBC Brasil e reproduzida pelo portal do jornal O Estado de S. Paulo, 16-05-2012.
Eis a entrevista.

O que o sr. acha da criação de uma Comissão da Verdade no Brasil?
É um momento significativo, de reconhecimento da história brasileira. Apesar de a Comissão em si não poder processar ninguém - o que é uma grande concessão aos militares - a verdade que será desenterrada por ela pode ser muito poderosa. Uma vez que a caixa de Pandora do passado for aberta, será muito difícil fechar a tampa novamente. Estou otimista que a Comissão levará à Justiça ao desvendar os crimes contra os direitos humanos cometidos durante o regime militar.

O que, na sua opinião, pode potencialmente ser revelado pela primeira vez a partir dos trabalhos da Comissão?
No trabalho de historiadores e pesquisadores de direitos humanos, você não sabe o que não sabe. Embora pareça que muitos dos crimes durante as operações militares sejam conhecidos, se a Comissão da Verdade fizer valer a nova legislação de liberdade de acesso à informação e usar a cláusula desta lei para liberar documentos relativos aos direitos humanos, pode mudar a forma como a sociedade brasileira percebe o seu próprio passado.

O sr. mencionou a concessão feita de saída pela Comissão da Verdade no Brasil no sentido de não processar ninguém. Mas a comissão do Chile também começou com várias concessões e , mais tarde, houve condenações de militares no país.
A Comissão da Verdade também teve as mesmas restrições, vamos chamar assim, da brasileira. Estava significativamente restrita pela sombra da ditadura de Pinochet e pela ameaça de uma violência renovada por parte dos militares. Só foi estabelecida após Pinochet deixar claro que ela não poderia identificar perpetradores de crimes contra os direitos humanos. Mas o relatório extraordinário de dois volumes da Comissão se tornou base para uma discussão nova no Chile, sobre a busca pela verdade. E no fim, como todos sabem, o próprio Pinochet foi indiciado por crimes contra os direitos humanos. Levou anos, foi preciso muita paciência, mas como uma sociedade civilizada, o Chile caminhou da verdade para a Justiça. Os brasileiros também têm sido pacientes. O poder da informação que a Comissão brasileira gerar pode levar a um novo movimento por reconhecimento, prestação de contas e justiça.
Como o sr. acha que as informações contidas nos arquivos americanos podem ajudar nessa tarefa?

Um dos resultados mais claros do envolvimento americano em países latino-americanos na época é que os EUA tinham muitos conselheiros de contrainsurgência na região. As autoridades americanas documentaram o papel do Brasil contra a esquerda - não apenas brasileira, mas argentina, uruguaia , chilena - e o papel do Brasil na Operação Condor, uma colaboração liderada pelo regime de Augusto Pinochet no Chile com todos os regimes do Cone Sul. Entre os documentos de rotina do Departamento de Defesa, deve haver relatórios sobre a infraestrutura e as unidades das forças de segurança brasileira que podem ajudar a relacionar quem eram os responsáveis por determinadas regiões onde ocorreram abusos de direitos humanos. Além disso, pode haver relatórios operacionais detalhados e específicos sobre operações de contrainsurgência, operações como a do Araguaia, que reportem a repressão que ocorreu.

Há disposição dos EUA para abrir esses arquivos?

Os documentos da natureza que estamos falando não são abertos rotineiramente. Os que são considerados altamente confidenciais - que são baseados em fontes dentro do regime militar brasileiro, ou os relatórios de inteligência preparados pela CIA - não são liberados rotineiramente e é preciso uma petição baseada na lei de acesso à informação. Mas hoje, apesar de todo o apoio dos EUA aos regimes autoritários da América Latina na época, a política americana para a região é de fortalecimento de instituições de direitos humanos e da democracia. Os EUA já ajudaram outros países - Guatemala, Peru, Equador - que tiveram comissões da verdade, praticando aquilo que eu chamo de "diplomacia dos documentos", revendo e liberando rapidamente os arquivos em seu poder para uso dessas comissões.

O sr. acredita que o mesmo ocorreria no caso brasileiro?

Nossa organização espera trabalhar com a Comissão da Verdade brasileira para formular requerimentos detalhados junto ao governo americano de documentos cruciais, da mesma forma que assistimos comissões no Peru, Equador, Guatemala, El Salvador, etc.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

“Sobrevivi para ouvir gente como Guerra”, diz mulher de morto na ditadura

Suzana Lisboa, da Comissão de Familiares, Mortos e Desaparecidos, defende que ele seja convocado a falar naComissão da Verdade.

A ativista Suzana Lisboa, integrante da Comissão dos Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, afirmou ao iG, 03-05-2012, que as revelações do ex-delegado da Polícia Civil do Espirito Santo Cláudio Guerra são “muito impactantes” e que “seria uma grande vitória” ele ser ouvido pela Comissão da Verdade do governo federal, ainda em formação.

As afirmações de Guerra estão em depoimento para o livro Memórias de uma guerra suja, dos jornalistas Marcelo Netto e Rogério Medeiros.
“Sobrevivi para ouvir gente como Guerra”, disse Suzana, que participou por dez anos da Comissao de Mortos e Desaparecidos Políticos e a deixou em 2005, acusando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de esvaziar o grupo e não cumprir a promessa de abrir os arquivos do período da ditadura militar. O marido de Suzana, Luiz Eurico Tejera Lisboa, foi morto sob tortura em 1972 e enterrado como indigente. Seus restos mortais foram os primeiros de vítimas da ditadura a serem localizados e identificados, em 1979, no cemitério de Perus, em São Paulo.

Suzana reconhece que as afirmações do ex-policial precisam ser verificadas para checar sua veracidade, mas afirma que gostaria que Guerra a recebesse para conversar sobre casos específicos de mortos e desaparecidos.“Se ele quiser me receber, gostaria muito de encontrá-lo”, disse.
Cláudio Guerra afirmou ter participado ainda de reunião que decidiu a morte do delegado Sérgio Paranhos Fleury, de São Paulo, do atentado do Riocentro, em 1981, e ter sido designado para matar o jornalista Alexandre Baumgartem, em 82, e Leonel Brizola (governador do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul).

'Espectro' dos militares atemoriza possíveis delatores, diz Suzana

Suzana contou que, ao ver as matérias do iG, passou uma série de “torpedos” para amigos e conhecidos, a fim de encontrar e encomendar um exemplar do livro. Suzana admitiu que, em todos os anos de militância nessa área, nunca ouviu falar em Guerra. “Eu nunca ouvi falar nele, mas nós podemos dizer que nunca ouvimos falar nele, esses coronéis (Ustra e Juarez) não podem”, disse.

Ela ressaltou que as pessoas que vêm a público falar sobre os crimes do período correm riscos.

“O Brasil está tão atrasado, e a impunidade é tão corriqueira que é preciso se proteger. Se essas pessoas estivessem presas, mais gente falaria. O espectro dessas pessoas ronda todos. Ora, se foram capazes de cometer tantas atrocidades, poderiam fazer novamente. Lembro de, em viagens ao Araguaia, pessoas me dizerem : ‘Eu falaria, mas o Curió (Sebastião Rodrigues de Moura, o então “major Curió”, um dos principais comandantes de campo do Exército na Guerrilha do Araguaia, em 1974) está vivo ainda. Só falo depois que ele estiver morto ou preso’”, disse.