sexta-feira, 20 de abril de 2012

Cimi: 40 anos de luta a favor dos povos indígenas

A presença da Igreja nas aldeias juntos aos povos indígenas, em uma perspectiva de solidariedade, de doação, de respeito e de generosa aceitação das culturas. Esta é a missão do Conselho Indiginista Missionário (Cimi), conforme afirmou o bispo da Prelazia de Xingu-PA e presidente do Cimi, Dom Erwin Kräutler.

A reportagem é da CNBB, 19-04-2012.

“Precisamos sensibilizar a sociedade, pois só envolvendo as pessoas com os sofrimentos desse povo vamos conseguir conscientizar que temos uma grande dívida com os povos indígenas”, afirmou o bispo.

Fundado em 1972, o Cimi celebra neste ano 40 anos de lutas a favor dos povos indígenas. De acordo com Dom Erwin o que mais marcou a luta do CIMI ao longo destes anos foi o sangue derramado de seus mártires. “Acredito que não exista uma pastoral que tenha gerado tantos mártires quanto esta. O sangue derramado dos mártires é a semente dessa luta pela ressurreição dos povos indígenas”, acrescentou.

Dom Erwin destacou que o atual cenário dos povos indígenas não é favorável à suas lutas. “A política indigenista oficial não é favorável aos povos indígenas. Lamentamos que embora os índios estejam ancorados pela lei, ela não seja respeitada”, concluiu.

“Temos uma dívida social imensa com os povos indígenas”

"Temos uma dívida social imensa com os povos indígenas pelos massacres, genocídios, inomináveis crueldades e injustiças praticadas ao longo destes 512 anos de invasão e extermínio”, disse dom Édson Tasquetto Damian, bispo de São Gabriel da Cachoeira (AM), presidente da celebração eucarística realizada no Santuário Nacional de Aparecido neste segundo dia da 50a. Assembleia dos Bispos da CNBB.

A informação é do Boletim da CNBB, 19-04-2012.

Dom Damian é bispo na diocese onde 90% da população é formada por povos indígenas e trabalha em profunda sintonia com o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), um dos organismos vinculados à CNBB com atuação reconhecida na história recente do Brasil. Ele lembrou da fundação do Conselho e destacou: “o seu início, é marcada pelo testemunho dos mártires. Lembro apenas alguns: Pe Rodolfo Lükenbein, Simão Bororo, Pe João Bosco Penido Burnier, Ângelo Pereira Xavier, cacique Pancaré, Ângelo Kretã, líder dos Kaingang, Marçal Tupã-y, líder Guarani que saudou o papa João Paulo II quando visitou o Brasil em 1980, Ir Cleusa Rody Coelho, Pe Ezechiel Ramin, Ir JesuítaVicente Cañas. Xicão Xucuru, Galdino de Jesus, queimado vivo por um bando de jovens em Brasília, Cacique Nísio Gomes Guarani Kaiowá, o último que foi assassinado, em novembro do ano passado, no Mato Grosso do Sul”.

O CIMI tem 40 anos de existência que foram comparados por dom Damian, durante a homilia, como “o tempo em que o povo hebreu andou pelo deserto rumo à Terra Prometida e ajudam a manter viva a esperança dos povos indígenas que aguardam o processo de demarcação de 335 territórios e de outros 348 que ainda estão em fase de reivindicação”. O bispo de São Gabriel da Cachoeira manifestou seu apreço pelas comunidades indígenas “Sempre me encanto com estes irmãos. Apesar de uma vida dura e penosa nunca perdem a alegria e a fé que se expressam no sorriso límpido, espontâneo, cativante. Quando adoecem demoram até uma semana, nas frágeis embarcações com motor de ‘rabeta’, para serem transportados a São Gabriel, debaixo de sol abrasador ou de chuva torrencial. Dizia-me um médico que muitos chegam tão debilitados que se torna muito difícil ou até impossível o tratamento”.

Dom Damian, diante dos mais de 340 bispos reunidos em Aparecida, compartilhou uma experiência vivida com o Papa Bento XVI. Ele contou que na visita “ad limina”de 2010, ficou surpreso com duas perguntas feitas pelo Papa. A primeira: “O povo da sua região está destruindo a floresta?” Dom Damian disse que teve a alegria de informá-lo “que na bacia do Rio Negro apenas 4% das florestas foram derrubadas, ao passo que em alguns Estados da Amazônia elas já foram totalmente destruídas pela ganância avassaladora das madeireiras, do agronegócio e das hidrelétricas. D. Erwin Kräutler, nosso presidente do CIMI, não se cansa de denunciar a grande destruição e os minguados resultados da faraônica hidrelétrica de Belo Monte. Os índios são nossos mestres na preservação ambiental e no desenvolvimento sustentável. “Nossa vida depende da vida da floresta”, costumava dizer nossa mártir Ir Doroty Stang.

A segunda pergunta feita por Bento XVI foi: “Os índios são bons católicos. Eles se confessam?” Dom Damianrespondeu: “Todos, se confessam, desde as crianças que há pouco fizeram a Eucaristia até aos mais idosos. E com um detalhe original. A maioria começa dizendo: ‘Agora vou me confessar na minha língua’. Continua contando domDamian dizendo que o Papa reagiu e o indagou: “E você entende todas as línguas?” E o bispo respondeu: “De que jeito, respondi. São 18 línguas e tão diferentes umas das outras. Mas quem perdoa é o Pai que criou todos os povos e culturas e Ele se entende muito bom com seus filhos prediletos. Assim a boa nova das culturas indígenas acolhe a Boa nova de Jesus”.

Antes de terminar a homilia, o bispo de Sao Gabriel da Cachoeira fez um agradecimento: “Agradeço, de coração, a todos os que, com generosidade e abnegação, se dedicam à causa indígena como uma causa do Reino, às missionárias e missionários do CIMI, às dioceses e seus agentes de pastoral, às congregações religiosas, enfim, a todos os que vivem ‘em estado de missão inculturada e se empenham para que nossa Igreja se torne realmente morada de povos irmãos e, assim também, casa dos povos indígenas”.

Eis a íntegra da homilia.

“Devemos obedecer antes a Deus do que aos homens. O Deus de nossos pais ressuscitou Jesus, a quem vós matastes, pregando-o numa cruz. Disso nós somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus concedeu àqueles que lhe obedecem” (At 5 30 e 32).

Estas palavras do Apóstolo Pedro fazem ecoar a verdade que o Senhor nos diz Evangelho: “Aquele que vem do Alto, dá testemunho daquilo que viu e ouviu. Quem aceita o seu testemunho atesta que Deus é verdadeiro. Aquele que acredita no Filho possui a vida eterna” (Jo 3, 31-32 e 36).

“O Espírito Santo e nós”, congregados nesta jubilosa 50ª Assembléia da CNBB, acima de tudo, expressamos nosso vigoroso testemunho no Bom Pastor Ressuscitado, fundamento de nossa fé e razão de nossa esperança. Ele está vivo no meio de nós. Queremos ser testemunhas dele no seio da Igreja e no coração mundo.

Na luz e na força do Espírito do Ressuscitado somos hoje convidados a rezar pelos queridos povos indígenas no dia que lhes é dedicado. Queremos também testemunhar e reder graças a Deus pelos 40 anos de atuação profética do CIMI – Conselho Indigenista Missionário.

Depois de 20 anos de convivência das Irmãzinhas de Jesus de Charles de Foucuald com o povo Tapirapé, no rio Araguaia, no oitavo ano da ditadura militar, cinco anos depois da extinção do SPI – Serviço de Proteção ao Índio - por corrupção, sadismo e massacres a dinamite e metralhadoras, 10 anos depois início do Vaticano II, quatro anos depois da Conferência de Medellín, no período mais repressivo da história do Brasil, nosso amado e saudoso DomIvo Lorscheiter, então secretário geral da CNBB, no dia 23 de abril de 1972, reuniu em Brasília um pequeno grupo de missionários para discutir o projeto de Lei n. 2328 que tramitava na Câmara e dispunha sobre o Estatuto do Índio.

Quem fez parte deste grupo? Além de Dom Ivo, lá estavam D. Henrique Froehlich, D. Geraldo Sigaud, D. Eurico Kräutler, D. Pedro Casaldáliga. D. Tomás Balduíno, D. Estevão Avelar, e os missionários Luís Gomes de Arruda,Tomás de Aquino e Sílvia Wewering. Estes irmãos da primeira hora foram seguidos por uma multidão de testemunhas “da grande tribulação” (cf Ap 7,14). Temos uma dívida histórica e social imensa com os povos indígenas pelos massacres, genocídios, inomináveis crueldades e injustiças praticadas ao longo destes 512 anos de invasão e extermínio. Os missionários do CIMI desencadearam uma marcha de solidariedade fraterna. Lançaram sementes de esperança e forjaram a possibilidade de sobrevivência através das demarcações de territórios e abertura de novos horizontes.

A história do CIMI, desde o seu início, é marcada pelo testemunho dos mártires. Lembro apenas alguns missionários e indígenas: Pe Rodolfo Lükenbein, Simão Bororo e Pe João Bosco Penido Burnier, Ângelo Pereira Xavier, caciquePancaré, Ângelo Kretã, líder dos Kaingang, Marçal Tupã-y, líder Guarani que saudou o papa João Paulo II quando visitou o Brasil em 1980. Ir Cleusa Rody Coelho, Pe Ezechiel Ramin, Ir Jesuíta Vicente Cañas. Xicão Xucuru, Galdino de Jesus, queimado vivo por um bando de jovens em Brasília, Cacique Nísio Gomes Guarani Kaiowá, o último que foi assassinado e seu corpo seqüestrado, em novembro do ano passado, no Mato Grosso do Sul.

Os 40 anos de caminhada do CIMI recordam os 40 anos que o povo hebreu andou pelo deserto rumo à Terra Prometida e ajudam a manter viva a esperança dos povos indígenas que aguardam o processo de demarcação de 335 territórios e de outros 348 que ainda estão em fase de reivindicação. Como não lembrar neste momento os 30 anos de luta sofrida e paciente dos índios de Roraima para se apropiarem da TI Raposa Serra do Sol? Eu era administrador diocesano quando o secretário da presidência da república encarregou-me de comunicar ao presidente do CIR - Conselho Indígena de Roraima - que naquele dia, 15 de abril de 2005, o presidente assinaria o decreto da homologação. Chorando de alegria, o tuchaua Jacir José de Souza, grande líder Macuxi, pronunciou estas palavras inesquecíveis: “Assim como o povo da Bíblia e nós cristãos celebramos todos os anos a festa da Páscoa, o dia 15 de abril será por nós lembrado para sempre como o dia da libertação da TI Raposa Serra do Sol”. Oxalá todos os índios que vivem acampados nas margens das estradas ou confinados em exíguos espaços, possam um dia reaver a terra que lhes pertence e ter reconhecidos os direitos consignados pela Constituição Federal.

Agora, Deus me concede a imerecida graça de conviver com povos indígenas de 23 etnias, que falam 18 línguas diferentes e constituem mais de 90% da população na longínqua e pobre Igreja de São Gabriel da Cachoeira, na fronteira com a Colômbia e a Venezuela. Em 2014, celebraremos com gratidão os 100 anos de presença evangelizadora dos missionários salesianos e salesianas na imensa bacia do Rio Negro, que abrange 293.000 Km2.

Um dia recebi a visita da sábia antropóloga indigenista, Manuela Carneiro da Cunha. Dom Erwin me segredou que ela varava madrugadas com a equipe de trabalho a fim de encontrar os termos exatos para formular os direitos indígenas na Constituição de 88. Ela estava em São Gabriel para colaborar com outros pesquisadores que haviam descoberto que os índios cultivavam mais de 300 espécies de mandioca. Inclusive sabiam cruzar as diferentes espécies. Constataram também que a parte mais importante do enxoval que uma noiva indígena levava para a aldeia do seu futuro marido eram as manivas, isto é, as ramas de mandioca que ela havia aprendido a cultivar com sua mãe. Os casamentos da região são sempre interétnicos. Um indígena sempre se casa com uma jovem de uma etnia diferente. Por isso, a noiva ao mudar-se para a nova aldeia leva consigo as espécies de mandioca que ela aprendeu a cultivar na sua casa paterna.

Quando visito as aldeias espalhadas ao longo dos rios, depois de cansativas jornadas de “voadeira”, todos correm até a beira para receber o bispo e o tuchaua me saúda chamando-me de “excelência nosso pastor”. “Excelências são vocês”, respondo-lhes, que moram tão isolados e vivem desprovidos dos mínimos os recursos. O Rio Negro, apesar de ser o maior afluente do Amazonas, devido às numerosas cachoeiras e à acidez de suas águas, é chamado de “rio da fome”, pois não fornece peixes nem para saciar a fome dos seus ribeirinhos.

Sempre me encanto com estes irmãos. Apesar de uma vida dura e penosa nunca perdem a alegria e a fé que se expressam no sorriso límpido, espontâneo, cativante. Quando adoecem demoram até uma semana, nas frágeis embarcações com motor de “rabeta”, para serem transportados a São Gabriel, debaixo de sol abrasador ou de chuva torrencial. Dizia-me um médico que muitos chegam tão debilitados que se torna muito difícil ou até impossível o tratamento.

Na audiência particular com o Papa Bento, durante a “visita ad limina”de 2010, fiquei surpreso com a primeira pergunta que me fez: “O povo da sua região está destruindo a floresta?” Tive alegria de informá-lo de que na bacia do Rio Negro apenas 4% das florestas foram derrubadas, ao passo que em alguns Estados da Amazônia elas já foram totalmente destruídas pela ganância avassaladora das madeireiras, do agronegócio e das hidrelétricas. D. Erwin Kräutler, nosso presidente do CIMI, não se cansa de denunciar a grande destruição e os minguados resultados da faraônica hidrelétrica de Belo Monte. Os índios são nossos mestres na preservação ambiental e no desenvolvimento sustentável. “A morte da floresta é o fim da nossa vida”, costumava dizer nossa mártir Ir Doroty Stang.

Papa também me perguntou: “Os índios são bons católicos. Eles se confessam?” Todos, se confessam, respondi-lhe, desde as crianças que há pouco fizeram a Eucaristia até aos mais idosos. E com um detalhe original. A maioria começa dizendo: “Agora vou me confessar na minha língua”. E o Papa reagiu: “E você entende todas as línguas?” De que jeito, respondi. São 18 línguas e tão diferentes umas das outras. Mas quem perdoa é o Pi que criou todos os povos e culturas e Ele se entende muito bom com seus filhos prediletos”. Assim a boa nova das culturas indígenas acolhe a Boa nova de Jesus.

Muitas vezes, no meio dos povos indígenas, sentimos a presença de Deus e a verdade profética da palavra de S. Paulo (cf. Is 52,15): “Vê-lo-ão aqueles a quem não foi anunciado e haverão de conhecê-lo aqueles que dele não ouviram falar” ( Rm 15,21). Ao defender os projetos históricos dos povos indígenas, redescobrimos o Deus da Bíblia, que faz aliança com os pobres. O Deus, cuja justiça favorece as vítimas; o Deus do despojamento e da gratuidade, da proximidade e da libertação.

Agradeço, de coração, a todos os que, com generosidade e abnegação, se dedicam à causa indígena como uma causa do Reino, às missionárias e missionários do CIMI, às dioceses, prelazias e seus agentes de pastoral, às congregações religiosas, enfim, a todos os que vivem “em estado de missão inculturada (DAp, n.213) e se empenham para que nossa Igreja se torne realmente morada de povos irmãos e, assim também, casa dos povos indígenas (cf DAp, n.8).

Permitam-me, por fim, que diga um “bom dia” aos meus diocesanos nas três línguas indígenas que, em São Gabriel da Cachoeira, são consideradas oficiais, além do português:

“Puranga ara” – “Puraga”( Nheengatu ou Língua Geral)
“Hekoapi waikaa” - “Waikaa”(Baniwa)
“Wã’kati, masã” – “Wã’ká” (Tukano).

Um cordial abraço aos primeiros integrantes da Fazenda da Esperança de S. Gabriel, inaugurada no dia 24 de março, com as bênçãos do Cardeal Dom Cláudio Hummes, presidente da Comissão Episcopal para a Amazônia.

Divino e adorável Bom Pastor Ressuscitado, querida Mãe Aparecida, abençoai e acompanhai com carinho nossas irmãs e irmãos indígenas. Dai força e coragem às heróicas missionárias e missionários que convivem com eles e lutam para ajudá-los na conquista dos seus direitos. Respeitadas as nossas diferenças e enriquecidos por elas, somos todos iguais, porque somos todos irmãos no amor do Pai, no abraço Redentor do Filho, na comunhão do Espírito Santo.

Dom Edson Tasquetto Damian
Bispo de São Gabriel da Cachoeira (AM)

Análise do eleitorado católico francês para as eleições presidenciais


O historiador de Lion, Jean Dominique Durand, é um aguçado observador e um estudioso, de fama internacional, da história dos movimentos católicos, sociais e políticos na Europa. O “Vatican Insider” formulou algumas perguntas sobre as iminentes eleições presidenciais francesas, um momento fundamental para a vida do país e de toda a Europa.

A entrevista é de Luca Rolandi, publicada no sítio Vatican Insider, 19-04-2012. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

As próximas eleições presidenciais se apresentam como um momento crucial para a comunidade francesa e europeia. Depois de seu primeiro mandato, Sarkozy já não se apresenta como o homem novo, mas aquele da continuidade, em contraposição ao líder socialista Hollande.

Os católicos praticantes, ou seja, que vão à missa aos domingos, representam mais ou menos, segundo pesquisas, 14% da população. Nicolas Sarkozy teria 45% dos votos dos eleitores deste grupo, e 34% entre os eleitores não praticantes. Ao contrário, François Hollande teria somente 16% dos votos dos praticantes, e 24% entre os não participantes. Esta tendência se confirma no segundo turno, em que Sarkozy possui 70% dos votos dos católicos praticantes e 55% entre os não praticantes.

Portanto, podemos falar de um voto católico e dizer que esse voto tende para a direita. Porém, os estudos realizados (seria mais interessante fazer estes estudos com números exatos, depois da votação) mostram uma diminuição do voto de católicos em Sarkozy, apesar de seu discurso sobre a “laicidade positiva” e as raízes cristãs da França. Esta diminuição está relacionada, assim como para o conjunto da população, sobretudo, ao início de seu mandato, à sua vida particular e à sua relação com o dinheiro (o estilo denominado bling-bling), um estilo que tem se diluído com o tempo, mas cujas primeiras imagens do Governo Sarkozy permanecem na memória. E este estilo não corresponde à moral católica. Além disso, permanece a lembrança, e a realidade, da política em relação aos imigrantes, denunciada pelos bispos.

Uma parte do eleitorado católico, mesmo sendo minoria, inclina-se pelo voto socialista: é uma tradição francesa, marcada pela presença de várias personalidades católicas no Partido Socialista, como Jacques Delors, que pensam encontrar na esquerda uma maior atenção à justiça social. Porém, atualmente, ante as propostas deHollande sobre o casamento gay, as pesquisas sobre embrião e a eutanásia, têm causado embaraços. E, no entanto, desconhece-se o quanto estas propostas influirão no voto. Uma pequena parte do eleitorado católico permanece ligada à extrema direita, representada por Marine Le Pen, no entanto, uma postura contrária às advertências dos bispos sobre um partido cujo programa não é compatível com os princípios cristãos, no âmbito da vida social. Esta parte está majoritariamente vinculada ao integrismo lefebvrista. Atualmente, podemos dizer que o voto católico divide-se, principalmente, entre três candidatos: inclinando-se, principalmente, para Sarkozy e a direita republicana; para Bayrou, que representa, pelo menos em parte, a tradição democrata-cristã, e para Hollande, que personaliza a tradição dos católicos de esquerda.

Depois, existem outros candidatos, começando pela filha de Le Pen, e o católico François Bayrou, que poderiam ser outsiders incômodos. Nesta situação, como se colocam os católicos, os laicos ou os crentes que, apesar de não pertencer a um associacionismo estruturado, constituem uma realidade importante na sociedade francesa?

O verdadeiro outsider é o candidato de extrema esquerda, apoiado pelo Partido Comunista, Mélenchon, que representa um grande desafio para o candidato socialista. Porque se apresenta como um aliado muito enfastioso, com exigências fortes e irreais no contexto econômico atual. Sobretudo, com um elevado número de votos, poderia impedir Hollande de abocanhar o eleitorado de Centro e, em particular, os eleitores católicos. Por outro lado, neste momento, François Bayrou parece perder consenso. Católico, porém com posturas quase laicistas, europeístas, mas lançando o slogan: “Achetez français” (“comprar francês”), aglutina seu eleitorado natural, mas bem católico e, sobretudo, partidário de uma sólida construção da Europa.

Os bispos franceses interviram nas eleições presidenciais e nas expectativas dos franceses com um documento muito interessante.

A Conferência dos bispos franceses publicou, em outubro de 2011, um documento que recordava as responsabilidades sociais dos católicos e oferecia elementos de discernimento. Lamentavelmente, não recebeu a atenção midiática que merecia. É o problema de nossa sociedade e de nossos meios de comunicação, sobretudo, da televisão, que deixa em segundo plano o que é positivo. O documento foi difundido pelas igrejas, mas, concretamente chegou a poucas pessoas. Eu receio que este documento influencie pouco nas decisões dos eleitores.

A sociedade francesa intercultural e inter-religiosa ainda não completou este aspecto, especialmente nas áreas mais densas. Sem esquecer os sucessos como o de Toulouse, atualmente, a política consegue falar sobre esta realidade e enfrentá-la?

A sociedade francesa, em poucos decênios, se tornou multicultural e plurirreligiosa. Hoje em dia, talvez junto do Reino Unido, a França é, provavelmente, o país europeu mais heterogênio, do ponto de vista cultural e religioso. É preciso dar tempo ao tempo para realizar a integração, do ponto de vista social, das populações frágeis.

Sabemos que a França – país de antiga tradição imigrante – tem dificuldades, no momento, para aceitar pessoas procedentes de países vizinhos como Itália, Espanha, Portugal, de comum civilização cristã. Porém, tem conseguido integrar a milhares e milhares de pessoas.

Lamentavelmente, tem sido criados guetos nas periferias das grandes cidades e os políticos, ante os problemas complexos, tendem a simplificar, a exagerar os problemas para captar votos. Constitui um problema, no qual encontramos a pressão, muitas vezes negativa, dos meios de comunicação. Por outro lado, os problemas provêm, sobretudo, do Islã. A França tem sido um país colonizador, que possuiu um amplo império, em grande parte do mundo islâmico. Para os franceses, o islã foi considerado, por muito tempo, a religião dos colonizados, vista com desprezo e nunca reconhecida. Para os mulçumanos, o cristianismo era a religião do colonizador. E, atualmente, após a perda do império, sobretudo depois da independência da Argélia, e após uma terrível guerra que durou oito anos, o islã tem se convertido na segunda religião dos franceses.

É compreensível que nos encontremos frente a um grande problema psicológico, e que serão necessárias várias gerações para superá-lo. Além disso, nosso tempo deverá encarar aos problemas, entre as nações, que complicam esse desafio: o Oriente Médio, a violência islâmica, a pressão demográfica do Sul sobre o Norte do mundo, a crise econômica, etc. Não estou seguro de que a laicidade, à moda francesa, seja a resposta mais adequada a problemas tão amplos, porque nossos políticos, como tantos cidadãos franceses, não só desconhecem as religiões, como também as temem. A resposta com leis laicistas, como a que proíbe as jovens de usar o véu islâmico nas escolas, não é a resposta adequada à integração. A rigidez laica que, por exemplo, impede qualquer tipo de ensino religioso nas escolas, fomenta a ignorância sobre as religiões e, portanto, o medo.