quarta-feira, 16 de maio de 2012

EUA pode ajudar Brasil a abrir 'caixa de Pandora' do regime militar, diz especialista

Os Estados Unidos devem ajudar o Brasil a abrir a "caixa de Pandora" do seu regime militar, contribuindo com aComissão da Verdade que inicia os seus trabalhos nesta quarta-feira, disse à BBC Brasil um especialista americano em obter acesso a arquivos confidenciais históricos.
Peter Kornbluh, diretor de documentação sobre o Brasil no National Security Archive (Arquivo Nacional de Segurança), uma organização sem fins lucrativos vinculada à Universidade George Washington, acredita que o Brasil deu um passo histórico com a criação da Comissão, após o qual será impossível retroceder.

"Uma vez que a caixa de Pandora do passado for aberta, será muito difícil fechar a tampa novamente", diz, referindo-se aos segredos que podem ser revelados pela primeira vez, e que dariam início a um segundo debate no país, desta vez sobre justiça.

Kornbluh, um especialista em "abrir caixas de Pandora" usando a lei de acesso à informação americana, crê que as informações guardadas nos EUA podem ser valiosas principalmente diante da relutância das Forças Armadas brasileiras em abrir seus arquivos.

Sob pressão para ajudar no trabalho de comissões da verdade na região, ele diz, o governo americano tem liberado evidências ainda que atestem suas "políticas externas desabonadoras, reprováveis e imorais do passado", afirmaKornbluh.
A entrevista é publicada pela BBC Brasil e reproduzida pelo portal do jornal O Estado de S. Paulo, 16-05-2012.
Eis a entrevista.

O que o sr. acha da criação de uma Comissão da Verdade no Brasil?
É um momento significativo, de reconhecimento da história brasileira. Apesar de a Comissão em si não poder processar ninguém - o que é uma grande concessão aos militares - a verdade que será desenterrada por ela pode ser muito poderosa. Uma vez que a caixa de Pandora do passado for aberta, será muito difícil fechar a tampa novamente. Estou otimista que a Comissão levará à Justiça ao desvendar os crimes contra os direitos humanos cometidos durante o regime militar.

O que, na sua opinião, pode potencialmente ser revelado pela primeira vez a partir dos trabalhos da Comissão?
No trabalho de historiadores e pesquisadores de direitos humanos, você não sabe o que não sabe. Embora pareça que muitos dos crimes durante as operações militares sejam conhecidos, se a Comissão da Verdade fizer valer a nova legislação de liberdade de acesso à informação e usar a cláusula desta lei para liberar documentos relativos aos direitos humanos, pode mudar a forma como a sociedade brasileira percebe o seu próprio passado.

O sr. mencionou a concessão feita de saída pela Comissão da Verdade no Brasil no sentido de não processar ninguém. Mas a comissão do Chile também começou com várias concessões e , mais tarde, houve condenações de militares no país.
A Comissão da Verdade também teve as mesmas restrições, vamos chamar assim, da brasileira. Estava significativamente restrita pela sombra da ditadura de Pinochet e pela ameaça de uma violência renovada por parte dos militares. Só foi estabelecida após Pinochet deixar claro que ela não poderia identificar perpetradores de crimes contra os direitos humanos. Mas o relatório extraordinário de dois volumes da Comissão se tornou base para uma discussão nova no Chile, sobre a busca pela verdade. E no fim, como todos sabem, o próprio Pinochet foi indiciado por crimes contra os direitos humanos. Levou anos, foi preciso muita paciência, mas como uma sociedade civilizada, o Chile caminhou da verdade para a Justiça. Os brasileiros também têm sido pacientes. O poder da informação que a Comissão brasileira gerar pode levar a um novo movimento por reconhecimento, prestação de contas e justiça.
Como o sr. acha que as informações contidas nos arquivos americanos podem ajudar nessa tarefa?

Um dos resultados mais claros do envolvimento americano em países latino-americanos na época é que os EUA tinham muitos conselheiros de contrainsurgência na região. As autoridades americanas documentaram o papel do Brasil contra a esquerda - não apenas brasileira, mas argentina, uruguaia , chilena - e o papel do Brasil na Operação Condor, uma colaboração liderada pelo regime de Augusto Pinochet no Chile com todos os regimes do Cone Sul. Entre os documentos de rotina do Departamento de Defesa, deve haver relatórios sobre a infraestrutura e as unidades das forças de segurança brasileira que podem ajudar a relacionar quem eram os responsáveis por determinadas regiões onde ocorreram abusos de direitos humanos. Além disso, pode haver relatórios operacionais detalhados e específicos sobre operações de contrainsurgência, operações como a do Araguaia, que reportem a repressão que ocorreu.

Há disposição dos EUA para abrir esses arquivos?

Os documentos da natureza que estamos falando não são abertos rotineiramente. Os que são considerados altamente confidenciais - que são baseados em fontes dentro do regime militar brasileiro, ou os relatórios de inteligência preparados pela CIA - não são liberados rotineiramente e é preciso uma petição baseada na lei de acesso à informação. Mas hoje, apesar de todo o apoio dos EUA aos regimes autoritários da América Latina na época, a política americana para a região é de fortalecimento de instituições de direitos humanos e da democracia. Os EUA já ajudaram outros países - Guatemala, Peru, Equador - que tiveram comissões da verdade, praticando aquilo que eu chamo de "diplomacia dos documentos", revendo e liberando rapidamente os arquivos em seu poder para uso dessas comissões.

O sr. acredita que o mesmo ocorreria no caso brasileiro?

Nossa organização espera trabalhar com a Comissão da Verdade brasileira para formular requerimentos detalhados junto ao governo americano de documentos cruciais, da mesma forma que assistimos comissões no Peru, Equador, Guatemala, El Salvador, etc.

terça-feira, 15 de maio de 2012

O que está em jogo na Rio+20

"O falido modelo econômico, agora disfarçado de verde, pretende submeter todos os ciclos vitais da natureza às regras do mercado e ao domínio da tecnologia, da privatização e da mercantilização da natureza e suas funções". O texto integra o Informe do Grupo de Articulação Internacionalizado da Cúpula dos Povos por Justiça Social e Ambiental, publicado pelo portal Cúpula dos Povos, 14-05-2012.
O grupo pede adesões das organizações ao documento pelo gainter@rio2012.org.br
Eis o Informe.

A um mês da conferência das Nações Unidas Rio+20, os povos do mundo não veem resultados positivos no processo de negociação que está ocorrendo na conferência oficial. Ali não se está discutindo um balanço do cumprimento dos acordos alcançados na Rio 92, ou como mudar as causas da crise. O foco da discussão é um pacote de propostas enganosamente chamado de “economia verde” e a instauração de um novo sistema de governo ambiental internacional que o facilite.

A verdadeira causa estrutural das múltiplas crises é o capitalismo, com suas formas clássicas e renovadas de dominação, que concentra a riqueza e produz desigualdades sociais, desemprego, violência contra o povo e a criminalização de quem os denuncia. O sistema de produção e o consumo atual – representados por grandes corporações, mercados financeiros e os governos que garantem sua manutenção – produzem e aprofundam o aquecimento global e a crise climática, a fome e a desnutrição, a perda de florestas e da diversidade biológica e sócio-cultural, a contaminação química, a escassez de água potável, a desertificação crescente dos solos, a acidificação dos mares, a grilagem de terras e a mercantilização de todos os aspectos da vida nas cidades e no campo .

A “economia verde”, ao contrário do que o seu nome sugere, é outra fase da acumulação capitalista. Nada na “economia verde” questiona ou substitui a economia baseada no extrativismo de combustíveis fósseis, nem os seus padrões de consumo e produção industrial. Essa economia estende a economia exploradora das pessoas e do ambiente para novas áreas, alimentando assim o mito de que é possível o crescimento econômico infinito.

O falido modelo econômico, agora disfarçado de verde, pretende submeter todos os ciclos vitais da natureza às regras do mercado e ao domínio da tecnologia, da privatização e da mercantilização da natureza e suas funções. Assim como dos conhecimentos tradicionais, aumentando os mercados financeiros especulativos através dos mercados de carbono, de serviços ambientais, de compensações por biodiversidade e o mecanismo REDD+ (Redução de emissões por desmatamento evitado e degradação florestal).

Os transgênicos, os agrotóxicos, a tecnologia Terminator, os agrocombustíveis, a nanotecnologia, a biologia sintética, a vida artificial, a geo-engenharia e a energia nuclear, entre outros, são apresentados como “soluções tecnológicas” para os limites naturais do planeta e para as múltiplas crises, sem abordar as causas verdadeiras que as provocam.
Além disso, se promove a expansão do sistema alimentício agroindustrial, um dos maiores fatores causadores das crises climáticas, ambientais, econômicas e sociais, aprofundando a especulação com os alimentos. Com isso se favorece os interesses das corporações do agronegócio em detrimento da produção local, campesina, familiar, dos povos indígenas e das populações tradicionais, afetando a saúde de todos.
Como uma estratégia de negociação na conferência Rio+20, alguns governos de países ricos estão propondo um retrocesso dos princípios da Rio 92, como o princípio de responsabilidades comuns e diferenciadas, o princípio da precaução, o direito à informação e participação. Estão ameaçados direitos já consolidados, como os dos povos indígenas e populações tradicionais, dos camponeses, o direito humano à água, os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, dos imigrantes, o direito à alimentação, à habitação, à cidade, os direitos da juventude e das mulheres, o direito à saúde sexual e reprodutiva, à educação e também os direitos culturais.Está se tentando instalar os chamados Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) que serão utilizados para promover a “economia verde”, enfraquecendo ainda mais os já insuficientes Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM).

O processo oficial propõe estabelecer formas de governança ambiental mundial que sirvam como administradores e facilitadores desta “economia verde”, com o protagonismo do Banco Mundial e outras instituições financeiras públicas ou privadas, nacionais e internacionais, que irão incentivar um novo ciclo de endividamento e ajustes estruturais disfarçados de verde. Não pode existir governança global democrática sem terminar com a atual captura corporativa das Nações Unidas.

Repudiamos este processo e conclamamos todos para que venham fortalecer as manifestações e construções de alternativas em todo o mundo.

Lutamos por uma mudança radical no atual modelo de produção e consumo, consolidando o nosso direito para nos desenvolvermos com modelos alternativos com base nas múltiplas realidades e vivências dos povos, genuinamente democráticas, respeitando os direitos humanos e coletivos, em harmonia com a natureza e com a justiça social e ambiental.

Afirmamos a construção coletiva de novos paradigmas baseados na soberania alimentar, na agroecologia e na economia solidária, na defesa da vida e dos bens comuns, na afirmação de todos os direitos ameaçados, o direito à terra e ao território, o direito à cidade, os direitos da natureza e das futuras gerações e a eliminação de toda forma de colonialismo e imperialismo.
Conclamamos todos os povos do mundo a apoiarem a luta do povo brasileiro contra a destruição de um dos mais importantes quadros legais de proteção às florestas (Código Florestal), o que abre caminhos para mais desmatamentos em favor dos interesses do agronegócio e da ampliação da monocultura; e contra a implementação do mega projeto hidráulico de Belo Monte, que afeta a sobrevivência e as formas de vida dos povos da selva e a biodiversidade amazônica.

Reiteramos o convite para participação na Cúpula dos Povos que se realizará de 15 a 23 de junho no Rio de Janeiro. Será um ponto importante na trajetória das lutas globais por justiça social e ambiental que estamos construindo desde a Rio-92, particularmente a partir de Seattle, FSM, Cochabamba, onde se têm catapultado as lutas contra aOMC e a ALCA, pela justiça climática e contra o G-20. Incluímos também as mobilizações de massa como Occupy,indignados, a luta dos estudantes do Chile e de outros países e a primavera árabe.

Convocamos todos para que participem da mobilização global de 5 de junho (Dia Mundial do Ambiente); da mobilização do dia 18 de junho, contra o G20 (que desta vez se concentrará no “crescimento verde”) e na marcha daCúpula dos Povos, no dia 20 junho, no Rio de Janeiro e no mundo, por justiça social e ambiental, contra a “economia verde”, a mercantilização da vida e da natureza e em defesa dos bens comuns e dos direitos dos povos.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Esquerda grega cresce e seu líder apoia moratória


A incapacidade da Grécia de formar um governo de coalizão na esteira de eleições inconclusivas produziu um claro vencedor: Alexis Tsipras, 37 anos, o carismático líder da esquerda radical no país e a nova voz de peso na política grega.

A reportagem é de Costas Paris e Matina Stevis e publicada pelo The Wall Street Journal e reproduzida pelo jornalValor, 08-05-2012.

Tsipras levou seu partido, o Syriza, ao segundo lugar no domingo, com 16,8% dos votos, só dois pontos percentuais atrás da Nova Democracia, o partido de centro-direita que recebeu a maior votação. O socialista Pasok, que já foi forte, ficou em terceiro.

O Syriza - que fez campanha contra a política de austeridade defendida por parceiros da União Europeia - teve mais do que o triplo dos votos obtidos nas últimas eleições, em 2009. Com isso, Tsipras, admirador do presidente venezuelano Hugo Chávez, ganhou voz na formação de um novo governo grego - algo que parecia improvável poucos dias antes.

Hoje, ele vai tentar formar um governo de coalizão. Ontem, a tentativa do líder da Nova Democracia, Antonis Samaras, foi infrutífera. Não houve apoio suficiente.

"Nunca esperamos uma votação dessas", disse um membro do Syriza. "Mas o recado das urnas é claro. O eleitorado quer uma mudança radical no modo como o país é governado, quer o fim da austeridade brutal e estamos prontos para encarar o desafio".

Tsipras, que usa uma motocicleta BMW para ir ao Parlamento, defende a anulação do acordo de resgate da Grécia com credores estrangeiros. É um crítico feroz das medidas de austeridade e das reformas estruturais exigidas do país em troca do socorro financeiro.

Na campanha, ele defendeu o perdão da dívida ou uma moratória sobre o serviço da dívida pelos próximos três anos.Tsipras diz que só assim a Grécia conseguirá ter um superávit primário e garantir uma rede de proteção para o crescente número de cidadãos atingidos pela recessão, em seu quinto ano. Menos clara é a posição do parlamentar sobre a permanência ou não da Grécia na zona do euro.

"Os partidos que assinaram o acordo [de resgate] agora são uma minoria. Sua assinatura foi deslegitimada pelo povo", disse Tsipras.

Sem uma combinação óbvia de partidos capazes de se aglutinar numa maioria estável que possa governar, a Grécia parece fadada a ir às urnas de novo em breve.

Caso Tsipras vença a próxima eleição (e seu partido conquiste apoio, como muitos analistas esperam), será difícil para outros partidos de esquerda não se juntar a ele numa coalizão - incluindo o Pasok, hoje no governo. No domingo, boa parte do eleitorado do socialista Pasok votou no Syriza.

Tsipras entrou para a juventude do Partido Comunista ainda no ensino médio. O núcleo de seu partido surgiu de uma facção da ala dura do PC. Evoluiu e virou uma aliança que abriga vários grupos da fragmentada esquerda do país.

O partido é especialmente popular entre os jovens, mais atingidos pelo desemprego. É uma das poucas vozes na política grega com uma agenda que inclui direitos individuais, de homossexuais e questões ambientais. É, ainda, um dos poucos partidos pró-imigrantes na Grécia. Seu discurso contra a brutalidade da polícia e a favor do direito de protesto atraiu críticas de conservadores e de socialistas. Tsipras foi acusado de flertar com anarquistas e grupos por trás de violentos protestos no país.

Spiros Rizopoulos, especialista em estratégia de comunicação política e presidente da Spin Communications, diz que novas eleições são inevitáveis e provavelmente dariam vitória ao Syriza. "O Tsipras vai conseguir um resultado melhor numa nova eleição. Ganhou força num momento em que as pessoas estão prontas para ouvir qualquer coisa", disseRizopoulos.

Dois anos de duras medidas de austeridade acertadas com a UE e o FMI ajudaram a manter a economia da Grécia em recessão. O desemprego, em quase 22%, nunca foi tão alto. A quebradeira de empresas cresce - e o consumidor deixou de gastar. O Syriza e um punhado de partidos também contrários à austeridade ganharam força rejeitando os dois principais partidos por trás dessas políticas.

Itália pune direita e rejeita austeridade


O eleitorado italiano se juntou ao francês para rejeitar as medidas de austeridade na Europa. Nas eleições municipais, os italianos puniram severamente os partidos que formavam a coalizão do ex-premiê Silvio Berlusconi, impulsionaram a esquerda, mas também votaram como nunca em pequenos partidos que se opõem às medidas de austeridade, ao euro e à política tradicional do país.
A informação é do jornal Valor, 08-05-2012.

Esta foi a primeira eleição após a queda do governo Berlusconi, em novembro do ano passado. A votação, no domingo e na segunda, ocorreu somente em parte do país (20% do eleitorado). Das grandes cidades, apenasGênova e Palermo foram às urnas.

O recado dos eleitores foi claro. Mesmo sem os dados finais da apuração, o partido do Berlusconi, o PDL (centro-direita) teve seu pior resultado, não passando ao segundo turno na maioria das cidades importantes onde houve eleição. A Liga Norte (partido separatista e xenófobo que participava da coalizão de Berlusconi e está envolvida num amplo escândalo de corrupção) também desabou, perdendo em quase todo os seus bastiões no norte do país.

O Partido Democrático, de centro-esquerda, venceu ou está no segundo turno na maior parte das prefeituras importantes em jogo.

Mas pequenos partidos, que apostaram no discurso anti-austeridade, obtiveram ganhos significativos. O caso mais clamoroso é o do Movimento 5 Estrelas, liderado pelo humorista Beppe Grillo, que chegou a atingir 20% dos votos na cidade de Parma. Grillo faz há anos uma cruzada contra a corrupção e contra os partidos tradicionais do país, tanto de esquerda quanto de direita, apresentando-se como antipolítico. Ele defende a saída da Itália do euro.

Os socialistas e a massa falida


"Que bicho vai dar?", pergunta Vinicius Torres Freire, jornalista, comentando as implicações das eleições na França e na Grécia, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 08-05-2012. E pergunta mais: "Vitória dos socialistas na França anima até governo de direita quebrado, mas a Alemanha vai ceder?"

Eis o artigo.

Franceses e gregos votaram pela renegociação de dois acordos que deram impressão de mínima ordem às finanças dos governos europeus.

Mera impressão, na verdade, pois as finanças públicas de Espanha e Grécia, para citar apenas dois casos mais notórios, estão indo à breca. A crise europeia foi anestesiada pelo trilhão de euros que o Banco Central Europeuemprestou aos bancos da eurozona, a juros de pai para filho -o BCE doou dinheiro.

No entanto, as revisões do novo pacto de estabilidade europeu (corte de gastos, basicamente) e do acordo da dívida grega podem acabar com o resto de impressão de "mínima ordem" que a eurozona passava nas últimas semanas. Sem que, no entanto, se encontre solução alternativa para a eurozona.

Os socialistas franceses querem relaxar o pacto de março, que obriga os governos europeus a reduzir deficit a 3% do PIB até 2013 (que era o teto previsto na criação da união monetária, faz 20 anos).

Além do mais, sugerem que a União Europeia use seus fundos para estimular investimentos. De leve, ainda insinuam que gostariam de criar eurobônus (títulos de dívida, empréstimos), que levantariam dinheiro em nome da União Europeia a fim de tapar rombos e para outras finalidades "desenvolvimentistas".

A centro-direitista Angela Merkel não quer ouvir falar nem de relaxamento do pacto fiscal, que dirá do resto: fazer a Alemanha fiadora de fundos e empréstimos para a vizinhança "gastadora". Merkel terá uma eleição difícil em 2013, e a ideia de que a Alemanha deva "bancar" países "perdulários e ineficientes" é muito impopular.

Na pequena Grécia, todos os partidos do centro à esquerda querem rever o acordo da dívida. Não haverá governo grego que não seja composto majoritariamente pela esquerda. Logo, o caldo vai voltar a entornar pela Grécia. A não ser que não se forme governo algum e venham novas eleições, com resultados muito diferentes. Difícil que seja assim.

A Grécia está entrando em depressão e o governo em breve não terá dinheiro nem para pagar despesas cotidianas -o que entra no caixa, cada vez menos, sai em primeiro lugar para os credores.

Que bicho vai dar?

Mario Monti, o premiê que substituiu Berlusconi na Itália, tido como sátrapa da eurotecnocracia, mas um sujeito razoável, tem dito que arrocho apenas não vai resolver a crise. Monti, de resto, está sentindo a chapa esquentar na Itália. Mas o governo de centro-direita britânico, por exemplo, defende o arrocho, mesmo com o prestígio em ruína.

A vitória dos socialistas animou, porém, o governo de centro-direita espanhol, ainda novinho e muito impopular, além de estar com uma crise bancária quente nas mãos. O terceiro maior banco do país está bichado e terá de ser capitalizado pelo governo, que, porém, está na pindaíba e pode não cumprir as metas fiscais que prometeu à Europa (à Alemanha). De mansinho, a centro-direita espanhola espera que os socialistas franceses arranquem alguma coisa de Angela Merkel.

Mas "alguma coisa" seria o bastante para inverter o ciclo recessivo? Quanto a Alemanha vai ceder? O BCE vai dar apoio a "políticas de crescimento" (por vias indiretas, "acalmando mercados" com compra de títulos de governos)? Sozinha, a França não faz um verão.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Sustentabilidade e Educação. Artigo de Leonardo Boff


"Ser humano, Terra e natureza se pertencem mutuamente. Por isso é possível forjar um caminho de convivência pacífica. É o desafio da educação", escreve Leonardo Boff, filósofo, teólogo e escritor.

Eis o artigo.

A sustentabilidade, um dos temas entrais da Rio+20, não acontece mecanicamente. Resulta de um processo de educação pela qual o ser humano redefine o feixe de relações que entretém com o Universo, com a Terra, com a natureza, com a sociedade e consigo mesmo dentro dos critérios de equilíbrio ecológico, de respeito e amor à Terra e à comunidade de vida, de solidariedade para com as gerações futuras e da construção de uma democracia sócio-ecológica sem fim.

Estou convencido de que somente uma processo generalizado de educação pode criar novas mentes e novos corações, como pedia a Carta da Terra, capazes de fazer a revolução paradigmática exigida pelo risco global sob o qual vivemos. Como repetia com freqüência Paulo Freire:”a educação não muda o mundo mas muda as pessoas que vão mudar o mundo”. Agora todas as pessoas são urgidas a mudar. Não temos outra alternativa: ou mudamos ou conheceremos a escuridão.

Não cabe aqui abordar a educação em seus múltiplos aspectos tão bem formulados em 1996 pela UNESCO: aprender a conhecer, a fazer, a ser e a viver juntos; eu acrescentaria aprender a cuidar da Mãe Terra e de todos os seres.

Mas este tipo de educação é ainda insuficiente. A situação mudada do mundo exige que tudo seja ecologizado, isto é, cada saber deve prestar a sua colaboração a fim de proteger a Terra, salvar a vida humana e o nosso projeto planetário. Portanto, o momento ecológico deve atravessar todos os saberes.

A 20 de dezembro de 2002 a ONU aprovou uma resolução proclamando os anos de 2005-2014 a Década da educação para o desenvolvimento sustentável. Neste documento se definem 15 perspectivas estratégicas em vista de uma educação para sustentabilidade. Referiremos algumas:

Perspectivas socioculturais que incluem: direitos humanos, paz e segurança; igualdade entre os sexos; diversidade cultural e compreensão intercultural; saúde; AIDS; governança global.

Perspectivas ambientais que comportam: recursos naturais (água, energia, agricultura e biodiversidade); mudanças climáticas; desenvolvimento rural; urbanização sustentável; prevenção e mitigação de catástrofes.

Perspectivas econômicas que visam: a redução da pobreza e da miséria; a responsabilidade e a prestação de contas das empresas.

Como se depreende, o momento ecológico está presente em todas as disciplinas: caso contrário não se alcança uma sustentabilidade generalizada. Depois que irrompeu o paradigma ecológico, nos conscientizamos do fato de que todos somos ecodependentes. Participamos de uma comunidade de interesses com os demais seres vivos que conosco compartem a biosfera. O interesse comum básico é manter as condições para a continuidade da vida e da própria Terra, tida como Gaia. É o fim último da sustentabilidade.

A partir de agora a educação deve impreterivelmente incluir as quatro grandes tendências da ecologia: a ambiental, a social, a mental e a integral ou profunda (aquela que discute nosso lugar na natureza). Mais e mais se impõem entre os educadores esta perspectiva: educar para o bem viver que é a arte de viver em harmonia com a natureza e propor-se repartir equitativamente com os demais seres humanos os recursos da cultura e do desenvolvimento sustentável.

Precisamos estar conscientes de que não se trata apenas de introduzir corretivos ao sistema que criou a atual crise ecológica mas de educar para sua transformação. Isto implica superar a visão reducionista e mecanicista ainda imperante e assumir a cultura da complexidade. Ela nos permite ver as interrelações do mundo vivo e as ecodependências do ser humano. Tal verificação exige tratar as questões ambientais de forma global e integrada. Deste tipo de educação se deriva a dimensão ética de responsabilidade e de cuidado pelo futuro comum da Terra e da humanidade. Faz descobrir o ser humano como o cuidador de nossa Casa Comum e o guardião de todos seres. Queremos que a democracia sem fim (Boaventura de Souza Santos) assuma as características socioecológicas pois só assim será adequada à era ecozóica e responderá às demandas do novo paradigma. Ser humano, Terra e natureza se pertencem mutuamente. Por isso é possível forjar um caminho de convivência pacífica. É o desafio da educação.