segunda-feira, 2 de abril de 2012

Ao mestre, sem retoques. Entrevista com Leonardo Boff


Até o âncora da CNN saiu do sério no último domingo quando, quase incrédulo, abriu os braços para mostrar o tamanho do sombrero que Bento XVI afundou na cabeça ao ouvir um conjunto de mariachis na cidade mexicana deLeón. Era o início da primeira viagem do bávaro Joseph Ratzinger à América de língua espanhola desde que virou papa, em 2005. Observadores mais entusiasmados, ou mais fervorosos, podem ter vislumbrado ali uma latinidade que sairia do armário, com desdobramentos inesperados em Cuba, terra não dos sombreros, mas das guayaberas. Falso foguetório. Bento XVI, 85 anos incompletos, rapidamente se reconduziu à sobriedade germânica que o caracteriza. Do México saltou para a ilha caribenha, encontrou-se com os irmãos Castro, repetiu a palavra “liberdade” em diferentes momentos e arrumou outras tantas para condenar o bloqueio econômico americano. Daí pegou seu aeropapa e voltou para casa.

A reportagem e a entrevista é de Laura Greenhalgh e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 01-04-2012.

E a empatia esperada? E aquela sedução diante das massas que fez de seu antecessor, o polonês Karol Wojtyla, o João de Deus neste lado do mundo? Enfim, o que fica do primeiro ensaio de Bento XVI no terreiro da latino-americanidade? Quem reflete sobre essas e outras questões é o catarinense Leonardo Boff, 73 anos, que o papa conhece de longa data e a quem ainda se refere como “der frommer theologe”, o teólogo piedoso. “Esse tratamento tem a ver com o que ele me dizia no passado, ao aprovar meu jeito de aproximar teologia e espiritualidade. Ele leu o que escrevi, e gostava. Em compensação me condenou em outros campos”, relembra Boff, ex-aluno dileto de Joseph Ratzinger, depois confrontado irremediavelmente com o mestre quando este se tornou prefeito da poderosa Congregação para a Doutrina da Fé, ex-Santo Ofício, no pontificado de João Paulo II.

Sentar-se no banco de Galileu diante dos inquisidores da Igreja, tendo à frente o mestre que o formou e pressionado a renegar teses da Teologia da Libertação, da qual era um dos formuladores, não é experiência de vida que o tempo apague. Em 1985, o franciscano indexado como rebelde recebeu uma condenação ao silêncio obsequioso. Depois seguiu-se um leve relaxamento das sanções. Mas, em 1992, portanto há exatos 20 anos, veio o enquadramento mais forte de Roma: silêncio total, sem direito a escrever, recolhido a um convento nas Filipinas ou na Coreia. Boff então se despediu da Ordem dos Frades Menores, abandonou os votos sacerdotais e se declarou leigo.

Mas a Igreja, especialmente a dos pobres, segue dentro dele. A teologia, também. Recentemente acrescentou um título à lista de mais de 60 livros com o lançamento de Cristianismo: Mínimo do Mínimo (ed. Vozes), em que discute como as igrejas criam respostas complicadas para o mistério da fé, “que é feito de simplicidade”. Vê-se que o aluno continua na trilha oposta à do seu mestre na Universidade de Munique. Boff quer simplificar. Ratzinger, feito papa, quer recuperar a simbologia católica mais tradicional e austera. São antípodas que se referenciam mutuamente.

Nesta conversa em torno de Bento XVI, Boff traz à tona momentos em que ambos atuaram juntos, ou bem próximos, desde os anos que se seguiram ao Concílio Vaticano II (1961-62) até o derradeiro momento da ruptura. Professor emérito da Uerj, honoris causa das universidades de Turim (Itália) e Lund (Suécia) e detentor em 2001 do Right Livelihood Award, Nobel alternativo concedido em Estocolmo, hoje mora em Araras (RJ) com a mulher, a também teóloga Márcia Miranda, cercado da prole que adotou como sua. Além de falar aos movimentos sociais, mantém agenda extensa de palestras dentro e fora do País. “Vivo neste ciganismo intelectual”, brinca.

Eis a entrevista.

No sétimo ano do pontificado e na sua 23ª viagem internacional, esta é a primeira vez que Bento XVI empreende uma visita à América de língua espanhola. Sendo o continente um reduto do catolicismo, terá demorado a vir para esses lados?

A preocupação central do atual papa é recuperar visibilidade para a Igreja no continente europeu. É isso. Ele considera que o processo de secularização fez com que a Igreja perdesse importância social, tornando-se mais e mais invisível. Diante de um cristianismo agônico, como se vê em muitas partes da Europa, ele traça uma estratégia de reconquista, que não se aplica à América Latina, considerada já conquistada. Aqui ele procura reforçar o existente. Considero uma estratégia equivocada, pois implica optar pelos ricos e não pelas maiorias empobrecidas do mundo. Mas é justamente dessa estratégia que vem toda uma valorização do catolicismo tradicional, uma parafernália de símbolos religiosos recuperados, algo que a mim soa como coisa meio vaidosa. Acredito que a renovação não virá do centro, mas da periferia onde vivem 52% dos católicos. O cristianismo tornou-se uma religião do Terceiro Mundo que um dia teve origem no Primeiro Mundo. Mas isso é de difícil compreensão para o papa.

O senhor reconhece no Bento XVI de hoje o Ratzinger dos anos 80, que o condenou ao silêncio obsequioso e o levou, por fim, a abandonar a Ordem e o sacerdócio?

Há um Ratzinger anterior, com quem estudei e trabalhei nos anos 60, 70. Era um professor adorado pelos alunos, teólogo de posições avançadas, tínhamos estreita ligação. A partir de 1965, com a criação da revista Concilium, formou-se o grupo dos 25 teólogos mais influentes no mundo, grupo que se reunia uma vez ao ano em alguma cidade europeia, sempre na semana de Pentecostes, para discutir os rumos da igreja pós-Vaticano II. Ratzingerestava lá, conosco. Ficou tão entusiasmado com a minha tese de doutorado na Universidade de Munique, sobre a Igreja como sinal no mundo secularizado, que tratou de arrumar editora e financiamento de 14 mil marcos para a publicação. O que o teria feito mudar? Acho que ele chegou à Congregação para a Doutrina da Fé muito rapidamente. De simples teólogo em Munique foi a cardeal em pouco tempo e logo promovido a um posto importantíssimo no Vaticano, graças à amizade com Karol Wojtyla. Quando este virou papa, logo o chamou para a congregação. E é como eu sempre digo: Roma tem uma enzima que transforma todo mundo.

Roma mudou Ratzinger?


O papa, no meu modo de ver, vive um processo de regressão em sua capacidade de formular uma visão coerente do mundo, seja do ponto de vista da análise, seja do ponto de vista da teologia. Ele é cada vez mais conservador. É risível teologicamente ressuscitar a idéia medieval de que fora da Igreja Católica não há salvação e de que a romana é a única igreja verdadeira. Comete-se um erro teológico. Seria o mesmo que dizer: Evangelho é somente o deMarcos, o mais antigo. Os demais, de Mateus, Lucas e João, que vieram depois, têm apenas elementos evangélicos, mas não são o Evangelho. Ora, ele próprio me ensinou que, assim como os quatro Evangelhos se aceitam mutuamente, assim deveria acontecer com as igrejas. Juntas elas formam o legado de Jesus. Ele aceitou essa tese como teólogo, mas a renegou no Vaticano. E por quê? Eis uma coisa tão alemã... Ao ir para a congregação,Ratzinger o fez como um típico burocrata alemão, assumindo como algo pessoal o que era oficial. Lembro de uma passagem: logo depois de sua nomeação, escrevi uma carta para ele felicitando-o e dizendo que, enfim, a teologia iria florescer no mundo. Quinze dias depois recebi carta dele avisando que havia processos abertos contra mim na congregação e que daria andamento a eles. Pensei, puxa, vida, em 15 dias ele já terá mudado tanto?

A visita ao México e a Cuba servirá para diluir a imagem de Ratzinger como desagregador da Teologia da Libertação?

O papa carrega um fardo negativo na história da teologia cristã. Não apenas perseguiu teólogos levando-os a julgamento em Roma, como fez comigo e Gustavo Gutiérrez (teólogo e frade dominicano nascido no Peru), como proibiu que publicássemos a primeira Suma Teológica (obra doutrinária e filosófica de São Tomás de Aquino, do século XIII) na perspectiva da libertação.

Como assim?

Eu coordenava um grupo de cem teólogos da América Latina envolvidos na publicação da obra, em 53 volumes. Quando lhe expus o projeto, o então cardeal Ratzinger perguntou “e quem paga?”. Depois me disse que deveríamos publicar apenas um volume por ano, mas argumentei: “Eminência, não viveremos para ver o final do trabalho”. Por fim condicionou a autorização da publicação, o imprimatur, a uma licença especial que deveria vir de bispos espanhóis muito conservadores. Abandonamos o projeto. Tudo isso causou grande dano às comunidades que ter-se-iam enriquecido na sua compreensão da fé e também de seu compromisso político a partir da fé.

O giro latino-americano dos últimos dias também não poderá distrair a opinião mundial dos escândalos sexuais na Igreja?

Tanta perspicácia política não possuem os estrategistas do Vaticano. A concepção deles é centrada sobre a Igreja em si mesma, bastião de defesa contra o secularismo, ateísmo e materialismo do mundo moderno. Roma apoia o cristianismo da América Latina desde que mantenha sua lógica colonial, dependente do centro, e não pretenda fazer aqui um ensaio original com outras culturas, de onde saia um rosto índio-negro-latinoamericano de cristianismo. Ou seja, cristianismo, sim, desde que romano. Agora, a pedofilia atacou de fato o coração da Igreja Católica, aquele capital simbólico e espiritual do qual vivia sua legitimidade e força moral. Isso tudo deve causar uma tremenda perplexidade ao papa.

Por quê?

A concepção que eu ouvia em suas aulas era de que a Igreja deve ser o pequeno rebanho, um pedaço do mundo reconciliado, o oásis onde a salvação se realiza de forma exemplar, como representação para todos os demais. Ocorre que esse oásis e pedaço de mundo reconciliado é uma ideia platônica, realidade que nunca existiu. A Igreja está no mundo como as demais realidades, sujeita a vulnerabilidades da condição humana. Os antigos diziam e sobre isso o teólogo Ratzinger escreveu algumas belas páginas: a Igreja é uma casta meretriz. De noite ela peca como meretriz. De dia Deus a limpa, a torna casta e a faz sua esposa. Quanto à pedofilia na Igreja, a estratégia do Vaticano é desviante ao separá-la do celibato. O elo entre os dois temas é a sexualidade. Notoriamente a educação dos candidatos ao sacerdócio, e ao celibato, tem sido insuficiente, fazendo da sexualidade o mundo da tentação e do pecado. Ora, uma educação inadequada faz com que muitos deem azo a expressões perversas e criminosas da sexualidade. O normal seria a Igreja rever a lei do celibato e torná-lo facultativo, como o fizeram todas as igrejas.

Como o senhor compara o estilo João Paulo II ao de Bento XVI no contato com fiéis?

Podemos discutir a teologia conservadora de João Paulo II, mas não podemos desconhecer seu irradiante carisma, que galvanizava multidões. Num mundo sem figuras carismáticas, pois hoje a maioria dos chefes de Estado, opacos burocratas, sai das escolas de administração, a figura de João Paulo II se sobrelevava. Não possuía boa teologia, tanto que sua tese doutoral sobre a fé em São João da Cruz não foi aprovada. Mas era um grande pastor. Falava mais por gestos que por palavras. Sua aparição ao público era uma encenação. Vê-se que tinha sido na juventude ator. E foi ator a vida inteira, encenou a própria morte. Sua irradiação era tão grande que fascinou e, eu diria, até cegouRatzinger, que, em seu entusiasmo, logo o beatificou. Já o papa atual preserva dentro de si o mestre, que de fato foi, de uma rigorosa universidade alemã. Não possui carisma por isso não projeta aura benfazeja, mas severa, contida. O professor com quem privei sempre foi uma pessoa gentil, fina, mas extremamente tímida. Sim, Bento XVI é um homem muito tímido. Posso imaginar como deve sofrer longe de seus livros e da leitura de Santo Agostinho, do qual é eminente especialista, tendo que fazer saudações e dar manifestações públicas de carinho, algo inimaginável na sua atividade de Herr Professor.

João Paulo II e Fidel desenvolveram, guardadas as distâncias, um contato sincero aparentemente. E tem-se que a Igreja católica em Cuba recuperou terreno social e até presença política. Isso poderá ser ‘reeditado’ com Bento XVI e Raúl Castro?

Quem seguiu de perto o encontro de Fidel Castro com João Paulo II teve a clara percepção de que eles se afinavam profundamente. Pudera, tinham as mesmas características de base: o exercício autoritário do poder. E ambos eram figuras carismáticas. Com o papa atual é diferente. Eu diria que nessa semana vimos o encontro de dois chefes de Estado, cada qual com sua identidade, sem nenhum gesto que rompesse o plano burocrático. Como de praxe o papa tem que falar dos direitos humanos, já que a Igreja levanta a pretensão de ser especialista em humanidade, mas quem a conhece por dentro percebe a falácia da presunção.

Cuba e o contato com a gente simples de lá podem mudar concepções em Bento XVI?

O encontro é sempre criativo, muda a cabeça das pessoas. Seria preciso ser inimigo da própria humanidade e não se comover diante dos humildes que acenam e estendem a mão para uma figura que representa algo de sagrado, de uma realidade que ultrapassa a nossa. Para João Paulo II as viagens significavam grande aprendizado. Para Bento XVI deve também haver um quociente de aprendizado, mas como é intelectual de grandes conhecimentos teóricos, num nível realmente alto, penso que o aprendizado servirá para confirmar as próprias convicções. Mas talvez eu esteja subestimando a força intrínseca que todo encontro possui... Isso já é filosofia, não é análise.

Mas ele desembarcou no México, primeira etapa desta viagem, anunciando-se como ‘peregrino da fé, da esperança e do amor’.

Que outra mensagem poderia dizer? Ele não é um político, porém maneja símbolos poderosos, que alcançam fundo a alma das pessoas. Todos anseiam por amor, fé, esperança. Não será um Berlusconi ou um Sarkozy que farão semelhantes discursos. Então o papa está em seu papel.

Na coletiva para 70 jornalistas no voo Roma-León, rumo à primeira escala mexicana, o papa disse textualmente: ‘Hoje é evidente que a ideologia marxista, como foi concebida, já não responde à realidade’. Mas a frase chegou a ser publicada como ‘o papa disse que comunismo em Cuba não funciona’...

Como a maioria dos alemães, ele é profundamente anticomunista. E não diferencia os tipos de marxismo como fez inteligentemente João XXIII na Mater et Magistra, ele que era bem menos culto que Ratzinger. Se Bento XVI tivesse se restringido ao marxismo como teoria social, como conjunto de ferramentas para entender uma sociedade e analisar a lógica perversa do capital, talvez falasse o contrário. Hoje, dizem-no livreiros da Europa e dos Estados Unidos, Marx é um dos autores mais lidos e estudados por financistas que foram à falência e procuram entender por quê.

Fidel, no breve encontro com Bento XVI em Havana, ousou perguntar ‘o que faz um papa’. O que o senhor acha da indagação?

Se eu fosse o papa responderia com toda a simplicidade: “Não faço nada. Fazem tudo por mim”. Porque o que ele tem que fazer, e essa é sua única missão, é viajar pelo mundo para fortificar os irmãos na fé, mantendo a unidade de uma instituição que hoje tem o tamanho de uma China inteira. No mais, fazem tudo por ele. Uma vez alguém perguntou a João XXIII quantas pessoas trabalhavam na Cúria Romana. E ele disse: “A metade” (risos). É assim mesmo, metade trabalha, metade vagabundeia.

A secularização, como já se disse aqui, está no topo das preocupações do Vaticano. E o papa prega que é possível redescobrir Deus como orientação fundamental de vida no contexto da racionalidade moderna. O senhor está de acordo com ele?

Estimo que o papa possua um conceito reducionista de secularização. Na verdade é um conceito nascido no interior da teologia protestante do século XIX e começo do século XX para afirmar a legítima autonomia do saeculum, quer dizer, do mundo, da criação. Na secularização, Deus não é pronunciado, o que não significa que esteja ausente. Ele está presente sob o nome de justiça, amor, retidão, boa consciência, solidariedade e compaixão. Ilusão dos cristãos pensarem que Deus esteja presente somente onde seu nome é pronunciado, pois muitos se dão por piedosos e comportam-se como malfeitores. Nosso mundo político está cheio deles. Já o “secularismo” é a patologia da secularização ao afirmar que só existe este mundo e qualquer aceno a algo que o transcenda é ilusão ou alienação. Creio que o papa deveria ter feito a distinção para não condenar aquilo que é são.

Ele quer uma Igreja menor, mais disciplinada e homogênea. No ano passado, se não me engano, visitou sua Baviera natal, pregando ‘uma outra Alemanha’, não a Berlim secular, administrada por um prefeito gay...

Quem conhece a Baviera entende suas palavras. Vivi lá cinco anos ininterruptos e pude conversar muito comRatzinger sobre o tipo de catolicismo que se originou na região. Para o professor aquilo significa uma das mais perfeitas e completas encarnações da fé cristã numa cultura rústica, camponesa, de virtudes ligadas ao trabalho, à piedade familiar, às festas de Igreja e à impregnação de elementos religiosos em todas as casas. Ele me disse várias vezes que “o caminho romano passa pela Baviera”. Só que se trata de um cristianismo que não se confrontou com a modernidade!

Depois de deixar a ordem e o sacerdócio, o senhor esteve com seu ex-professor?

Não, não. Numa famosa conferência que fez em Florença, sobre o Vaticano II, ainda cardeal, Ratzinger me citou em público. Curioso, ele se refere a mim como “der frommer theologe” (o teólogo piedoso), aprovando a maneira como eu aproximo espiritualidade e teologia, mas me criticando duramente em outros textos... Pois bem, depois da conferência houve uma entrevista e um jornalista indagou por que, afinal, fizera a citação de alguém que havia condenado. E ele respondeu algo assim: “Boff é um homem inteligente, bom teólogo, espero que um dia volte e acolha o magistério da Igreja”. Continuará esperando.

terça-feira, 20 de março de 2012

Record dedica mais de 25 minutos do 'Domingo Espetacular' para matéria do “apóstolo milionário”

Na última edição do ‘Domingo Espetacular’, a TV Record produziu uma reportagem com mais de 25 minutos de duração sobre supostas denúncias envolvendo o religioso Valdemiro Santiago, fundador da Igreja Mundial do Poder de Deus. A matéria, comandada por Marcelo Rezende, afirmou que o “apóstolo” desvia dinheiro dos fiéis para benefício próprio.

A reportagem é de Anderson Scardoelli e publicada pelo sítio Comunique-se, 19-03-2012.

A reportagem da Record mostrou que Valdemiro é proprietário de duas fazendas no município de Santo Antônio do Leverger, em Mato Grosso. De acordo com a produção da Record, as propriedades – que juntas somam mais de 26 mil hectares e estariam, segundo a emissora, avaliadas em R$ 50 milhões – foram compradas em nome da Igreja Mundial e, posteriormente, repassadas para a W. S. Music, empresa controlada por Valdemiro.

O material produzido pela Record e exibido na noite do último domingo, 18, não poupou frases de efeito para definir a situação envolvendo a Igreja Mundial do Poder de Deus, o empresário Valdemiro Santiago e a compras das fazendas no Mato Grosso. “Vocês vão conhecer agora, de perto, o paraíso que o dinheiro dos fiéis da Igreja Mundial do Poder de Deus proporcionou a Valdemiro Santiago, o apóstolo”, disse Rezende.

Em outro momento, o jornalista disse que o trabalho de apuração e produção da reportagem durou mais de quatro meses e que “seguiu a trilha do dinheiro, que começa na doação dos fiéis e vai parar no bolso do novo criador de gado do pantanal [mostrando imagens de Valdemiro]”. A reportagem citou que o fundador da Igreja Mundial esteve emSanto Antônio do Leverger e fez com que o “milagre do enriquecimento” deixasse rastros.

Guerra de igrejas

Durante os últimos cinco minutos da reportagem, foi exibido o perfil de Valdemiro e o tema foi o conflito entre a Igreja Mundial do Poder de Deus e a Igreja Universal do Reino de Deus, criada pelo empresário Edir Macedo, dono da Rede Record de Televisão. Rezende conta que Valdemiro foi durante 18 anos membro da denominação do dono da emissora de TV em que trabalha, mas que “abandonou” a igreja em 1998 e criou seus próprios templos religiosos.

A prisão de Valdemiro, por porte ilegal de armas em 2003, foi lembrada pela TV Record, que destacou que o religioso afirmou, na época, que o armamento estava sendo usado para caça e que pertencia a um de seus amigos. Para mostrar episódios da Mundial com a polícia, a reportagem informou que em 2010 três pastores da igreja foram presos acusados de tráfico internacional de armas e estariam, supostamente, envolvidos com bandidos dos morros cariocas.

O jornalista, para quem Valdemiro se “autointitula apóstolo”, afirmou, sem observações, que Macedo é “o bispo”. Na matéria, Rezende afirma que o presidente da Igreja Mundial “ataca com violência” o dono da Universal/Record. A reportagem também mostrou que mais de 50 templos da Igreja Mundial podem receber ordem de despejo por falta de pagamento de aluguel. “O que mais o apóstolo Valdemiro Santiago tem a esconder?” foi a pergunta que encerrou a matéria - disponível na capa do R7 desde a noite de domingo.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Bispo oficializa sua candidatura à presidência de Honduras

O bispo emérito Luis Alfonso Santos afirmou que quer ser presidente de Honduras pelos pobres que há em seu país, que somam uns “cinco milhões”, incluindo “dois milhões e meio de indigentes”, segundo indicou.

A reportagem é do sítio espanhol Religión Digital, 13-03-2012. A tradução é do Cepat.

“Vamos com tudo. Você acredita que é aceitável que se viva dizendo que Honduras é um país pobre, sendo um país rico em recursos naturais, madeira, água, mineração de metal e talvez petróleo?”, sublinhou Santos em imprensa coletiva, ao confirmar que buscará a candidatura presidencial pelo opositor Partido Liberal.

O prelado que no final de 2011, por razões de idade (75 anos), apresentou sua renúncia ao Vaticano como bispo da diocese de Copán, no oeste de Honduras, é promovido por uma corrente denominada “Liberais Autênticos”, surgida depois do golpe de Estado, de 28 de junho de 2009, contra o então presidente Manuel Zelaya.

Santos, que condenou o golpe de Estado, sinalizou que se não ganhar a candidatura presidencial pelo Partido Liberal, a que pertencia Zelaya quando foi tirado do poder e do país, tampouco apoiará aos liberais “golpistas”, que apoiaram a derrubada do ex-presidente.

Na opinião de Santos, o governo de Porfirio Lobo, que assumiu em 27 de janeiro de 2010, “não está seguindo nenhum plano de desenvolvimento”, enquanto que ele conversou com sociólogos sobre um plano de saúde pública, produção agrícola, pecuária e de animais de curral para atender os problemas dos pobres.

“Pelo bem comum e a defesa dos direitos humanos eu aceitei”, anunciou o religioso de 75 anos, que no ano passado se retirou da diocese, após 46 anos de exercício sacerdotal.

Santos também argumentou que a decisão de aceitar a proposta “responde a uma necessidade atual da nação hondurenha, que na sua maioria se encontra na extrema pobreza”. “Efetivamente, de oito milhões de hondurenhos, cinco milhões são pobres e destes cinco milhões, dois milhões e meio são indigentes”, manifestou.

Além disso, o bispo destacou os problemas de insegurança e desassossego, assim como o desemprego que afeta aos hondurenhos. “Muitas pessoas em Honduras perderam a fé e a esperança na classe política que até agora governou o país”, e “Honduras aparece como o terceiro país mais pobre e o segundo mais corrupto da América Latina”, lamentou.

O bispo afastado não quis integrar o movimento Liberdade e Refundação (Libre), que promove Zelaya, e que está dependendo do reconhecimento do Superior Tribunal Eleitoral, como partido político que buscará o poder nas eleições gerais de 2013.

Até o momento, os cinco partidos legalmente inscritos em Honduras são: o Nacional, que está no poder, o Liberal, primeira força de oposição, e os minoritários, a Democracia Cristã, o Inovação e a Unidade Social Democrata, de esquerda.

Papa e México, Igreja em crise


Em um momento em que a hemorragia de fiéis atinge também a Igreja do segundo país mais católico do mundo, a esperança é que a visita do Papa Bento XVI ao México (de 23 a 26 de março), possa dar um novo impulso.

A reportagem é de Marco Tosatti, publicada no blog San Pietro e Dintorni, 12-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Enquanto cresce no país a expectativa pela viagem já iminente, o presidente Felipe Calderón anunciou que, por ocasião da permanência do pontífice, está previsto um encontro oficial. Os números do último censo revelam que o catolicismo no México viu uma diminuição de 88% para 84% nos últimos dez anos.

Mas o arcebispo de León, José Guadalupe Martín, está convencido de que a presença do Santo Padre poderá "fortalecer a fé entre o povo". Por outro lado, afirma Guadalupe Martín, prelado de uma das três cidades que o papa visitará no estado de Guanajuato, não devemos nos fixar sobre os números e medir as quantidades, mas sim avaliar a qualidade do catolicismo praticado e a intensidade da fé.

E se é verdade que há uma diminuição em termos percentuais – observa – também é verdade que a situação, olhada a partir de uma perspectiva diferente, revela que mais de 90 milhões de mexicanos se declaram católicos, um valor que deve ser considerado, sem dúvida, "muito alta". Segundo o arcebispo, a diminuição dos fiéis deve ser vista em relação a um outro fato, ou seja, à difusão da "presença' de outros grupos religiosos", em parte outras Igrejas históricas, mas também novos grupos e seitas.

Nos últimos 30 anos, de fato, apareceram inúmeras comunidades de estilo norte-americano, principalmente evangélicos e pentecostais, caracterizados por uma rejeição ao catolicismo. E o que papa encontrará em sua chegada é um país que foi o ponto de referência para a fé católica por quase 500 anos, mas com uma realidade que está sofrendo mutações muito rápidas na sua fisionomia religiosa.

Por essa razão, o Conselho dos Analistas Católicos anunciou a distribuição nas paróquias de cartilhas que descrevem as posições do papa sobre vários assuntos. Além de dar a conhecer o pensamento do papa – explicaGuillermo Gazanini, secretário do órgão –, visa-se a ir ao encontro das pessoas que abandonaram a fé católica para ir para outras religiões. A missão do papa, segundo Gazanini, é a de uma nova evangelização do México e de toda aAmérica Latina.